terça-feira, 6 de junho de 2017

Meeting Of Favela MOF: Redesenhando vidas através do graffiti

Apresento  a  monografia do final do meu curso de Artes Visuais da Unigranrio, onde apresentei uma breve pesquisa sobre o Meeting Of Favela, considerado o maior evento de grafite voluntário do Mundo. O evento acontece na Vila Operária em Duque de Caxias.





Meeting Of Favela MOF:
Redesenhando vidas através do graffiti





Agradeço a todos que ajudaram a realizar este trabalho, aos artistas que mesmo com muitas tarefas no seu dia-a-dia, se dispuseram a colaborar. Aos professores: Anna Corina, Alexandre Sá e Cristina Pierre, ao meu orientador, Raoni Moreno, da UNIGRANRIO, que desde o início do curso, têm me dado base para chegar a este trabalho.

Um agradecimento especial à minha parceira, esposa e companheira de todas as horas Rosita Vilar, que sempre me deu apoio para que persistisse em busca deste sonho.



RESUMO

Esta monografia é o resultado da pesquisa sobre o Meeting of Favela, mais conhecido como MOF, encontro de arte urbana que acontece no bairro da Vila Operária em Duque de Caxias, no Rio de Janeiro. A escolha do tema se deu pelo fato do MOF, ter-se tornado um dos maiores eventos de graffiti voluntário do mundo, e de certa forma, ter a força para modificar tanto o local, quanto a vida dos artistas que criaram o evento. A pesquisa foi realizada através de minha vivência no MOF, do relato dos participantes e matérias de revistas e jornais, além de pesquisa bibliográfica, para contextualizar o tema, com a produção e a história da arte urbana.

Palavras-chave : Arte Urbana; graffiti; território.



                                  
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LISTA DE ILUSTRAÇÕES         


Figura 1; Imagens na Caverna de Cahuvet na França
Figura 2: Pintura encontrada na cidade de Pompeia
Figura 3: Artistas pintando os muros e postes da Vila Operária
Figura 4: Mapa da localização da Vila Operária
Figura 5: Combone Wesley, Carlos Bobi, Marcios Bunys e Kajá, os organizadores do MOF
Figura 6: Graffiti do artista Kajaman
Figura 7: Graffiti do artista Carlos Bobi
Figura 8: Graffiti do artista Marcio Bunys.
Figura 9: Graffiti do artista Wesley Combone.
Figura 10: Cartaz da exposição realizada em 2014 no Sesc Caxias
Figura 11: Foto do primeiro MOF.
Figura 12: Cartaz da edição do MOF 2007
Figura 13: MOF 2008.
Figura 14: Cartaz da edição do MOF de 2009.
Figura 15: Cartaz da edição do MOF de 2010.
Figura 16: Cartaz da edição de 2011.
Figura 17: MOF 2012.
Figura 18: Cartaz do MOF 2013.
Figura 19: Divulgação da edição de 2014 do MOF.
Figura 20: Morador da Vila Operária com sua casa grafitada.
Figura 21: Representantes do MOF recebendo o Prêmio de Cultura do Estado do Rio de Janeiro 2014. Figura 22: Trabalho do artista Kajaman com o restaurante Spoleto.
Figura 23: Reportagem sobre os artistas na SPORT TV.
Figura 24: Divulgação na internet da Galerio.
Figura 25: Cartaz de divulgação da exposição do artista Combone na Paçoca Gallery.

SUMÁRIO

1.     Introdução
2.     A arte: uma das formas de expressões humanas mais remotas
2.1.          O berço da Arte Urbana
3.     Mutirão de Graffiti
3.1.          Vila Operária
3.2.          O Meeting off Favela (MOF)
3.3.          Os artistas que fazem o MOF
3.4.          A rede
3.5.          Linha do tempo do MOF
4.     O simbolismo da arte e os conflitos
4.1.          A consolidação do MOF
4.2.          O mercado, o MOF e os artistas
5.     Conclusões
6.     Referências bibliográficas



1.    Introdução

Esse trabalho busca apresentar o evento denominado Meeting of Favela, que acontece na Vila Operária em Duque de Caxias, no mês de novembro, desde o ano de 2006. Mais conhecido como MOF, ele reúne milhares de grafiteiros e realizadores da cultura urbana e do hip hop, que se encontram no bairro para colorir os muros das casas dos moradores. O MOF é considerado, pelos seus organizadores, como o maior evento de graffiti voluntário do mundo; nele os artistas vêm para participar desse encontro, pagando suas próprias despesas, com deslocamento e demais gastos.
No primeiro capitulo vai ser abordada a história do graffiti, e será levantado um estudo dos primeiros registros visuais feitos pelo homem, ainda no tempo das cavernas, como também, dos murais encontrados na cidade de Vesúvio. Também ira-se tratar do berço da arte urbana e do graffiti, que foi a cidade de Nova York, nos EUA, onde essa expressão artística se difundiu para todo o mundo.
No segundo capitulo será aprofundada a concepção do que é um mutirão de graffiti. Será abordado o primeiro MOF, os artistas que conceberam o evento, a rede que foi criada para que hoje ele se tornasse um dos maiores eventos de cultura urbana do mundo, e por fim será apresentada a linha do tempo do MOF.
No terceiro capitulo, discorrerá sobre o local onde o MOF acontece: a Vila Operária, sua história, perfil do bairro e as transformações que ocorreram ao longo de suas primeiras ocupações. Também se tratara dos conflitos que ocorrem subjetivos e objetivos, que um evento como o MOF causa na comunidade. Será abordada a consolidação do evento, que ganha reconhecimento e acumula prêmios recebidos, assim como da carreira dos artistas, que além dos muros passaram a levar seus trabalhos para o ambiente das galerias de arte.


2.    A arte: uma das formas de expressões humanas mais remotas

O homem desde a idade mais remota, procura de alguma forma se expressar através da arte; as primeiras pinturas descobertas no século XIX na Espanha e na França datam ainda da era glacial. A Caverna de Chauvet na região de Ardèche, na França, é onde estão localizados os mais antigos registros de pintura realizada pelo homem. Nelas podem-se ver as representações de animais na parede e pequenos entalhes de figuras humanas.
 Segundo Gombrich, é provável que essas pinturas rupestres sejam as mais antigas imagens produzidas pelo homem. “A explicação mais provável para essas pinturas rupestres ainda é a de que se trata das mais antigas relíquias da crença universal no poder produzido pelas imagens”. (GOMBRICH, 2001, p. 42)



 

Figura 1; Imagens na Caverna de Cahuvet na França. Fonte: www.arte-coa.pt


 Desde lá até os dias de hoje, a arte nas suas mais variadas formas, vem evoluindo ao longo dos tempos e criando novas maneiras de representação da expressão artística revelando novos métodos de traduzir para o mundo a intensidade da criação humana. “Quanto mais recuamos na história, mais definidas, mas também mais estranhas, são as finalidades que se crê serem servidas pela arte” (GOMBRICH, 2011, p. 39).

O que sabemos é que as imagens sempre tiveram forte influência para nós seres humanos. Nem sempre podemos afirmar o que os seus autores quiseram expressar com a suas representações, se eram para evocar o divino, para apresentar alguma simbologia, ou simplesmente para modificar o ambiente ao seu redor. Porém sempre tivemos essa capacidade e essa força propulsora capaz de realizar transformações das mais variadas ordens, segundo Gombrich, “nenhum povo existe no mundo sem arte” (GOMBRICH, 2011, p. 39). Riscar cavernas, e mais tarde paredes de construções, é um hábito que o homem carrega desde os tempos remotos.
Segundo o autor Hunter G., o graffiti mais antigo conhecido foi esculpido por soldados semitas em uma parede de um penhasco egípcio, há 4 mil anos atrás.

                  Ele apresenta duas inscrições que parecem conter o nome de um homem e uma referência a Deus, e representam as ações criativas de indivíduos isolados de hieróglifos sancionados oficialmente. (HUNTER G,2012, p. 10).

Ainda segundo Hunter, há outras regiões, na Grécia Antiga e na Mesopotâmia, com casos de paredes riscadas, de onde surgiu o termo etimológico da palavra. Segundo Gitahy, “grafito vem do italiano, inscrição ou desenhos de épocas antigas, toscamente riscados a ponta ou a carvão, em rochas, paredes, etc...” (GITAHY, 1999, p.13).
Derivando suas raízes etimológicas da palavra grega graphien, que significa riscar, desenhar ou escrever, o graffiti também foi utilizado na Roma Antiga como uma usual assinatura das sociedades secretas, incluindo os primeiros cristãos, que usaram um simples peixe como símbolo. (HUNTER G. 2012, p. 10).

Na cidade de Pompeia, que foi destruída pela erupção do Vulcão Vesúvio em 79 d.C., quase todas as casas tinham murais pintados, em alguns locais foram encontradas inscrições contendo mensagens de propaganda e de cunho politico. “Quase todas as casas e vilas nessa cidade tinham pinturas murais, colunatas e galerias ilustradas, imitações de quadros emoldurados e de cenários para palcos teatrais.” (GOMBRICH, 2011, p.113). Segundo Gitahy, na Idade Média, na Espanha, durante a Inquisição, padres pichavam a parede de conventos de outras ordens que não compactuavam com eles (GITAHY,1999, p.20). Embora alguns autores defendam que essas expressões foram os primeiros registros da arte do graffiti, essa não será a linha deste estudo, que vai focar nos aspectos da arte urbana, iniciada a partir dos anos 60.


Figura 2: Pintura encontrada na cidade de Pompeia. Fonte: www.revistaea.org

2.1.   O Berço da Arte Urbana
O graffiti tal qual conhecemos hoje, teve inicio na década de 60 nos EUA, mais precisamente na Filadélfia, onde jovens utilizavam letras “tags” (assinaturas), para demarcarem seus territórios, como uma forma de contestação social e de afirmação da sua identidade. Esse período histórico é que podemos afirmar que foi de fato o nascimento do graffiti.

Esse movimento havia, na verdade, começado na Filadélfia, onde peças de larga escala que surgiram na década de 1960 redefiniram o meio, com ativistas políticos fazendo declarações e gangues de rua delimitando seus bairros. Isso foi enraizado como bombing , creditado a Cornbread e Cool Earl, que escreveram seus nomes por toda a cidade, um estilo tipográfico que somente depois migrou para a cidade de Nova York. (HUNTER GARRY, 2013, p. 12).
Depois, o movimento chegou à cidade de Nova York, onde foi assimilado pela juventude, principalmente pelos adeptos do hip hop. Em pouco tempo a arte de rua, ou arte urbana, se expandiu para outros territórios e países. Com sua linguagem fácil, e o caráter de contestação social, foi absorvido facilmente pela juventude, que tem historicamente a capacidade de assimilar e difundir as mudanças na sociedade. 

Os jovens passaram a escrever seus nomes e a rua onde moravam, a forma de expressão acabou virando uma febre entre os jovens da localidade e acabou viralizando, e servindo inclusive de base para o movimento hip hop.   “O hip hop é uma máquina de guerra, no sentido de Deleuze, ou seja, campo que milhares de singularidades constroem resistências (batalhas simbólicas) aos programas dominantes enunciados pelas máquinas comunicacionais midiáticos.” (ROCHA JANAÍNA, 2011, p. 04)
Eu vou falar o que penso, então não vai ser nada demorado. Ao contrário do que dizem por aí, o graffiti não é a mais baixa forma de arte. Embora seja necessário se esgueirar pela noite e mentir para a mãe, grafitar é, na verdade, uma das mais honestas formas de arte disponíveis. Não existe elitismo ou badalação, o graffiti fica exposto nos melhores muros e paredes que a cidade tem a oferecer e ninguém fica de fora por causa do preço do ingresso. As pessoas que mandam nas cidades não entendem o graffiti porque acham que nada tem o direito de existir sem gerar lucro, o que torna a opinião delas desprezível (...). Algumas pessoas se tornam policiais porque querem fazer do mundo um lugar melhor. Algumas pessoas se tornam vândalos porque querem fazer do mundo um lugar visualmente melhor. (BANKSY, 2012, p. 08).

No início, o graffiti utilizava as tags (assinaturas) dos seus grupos, que depois evoluíram para peças mais elaboradas, além de muros eles passaram a usar os trens do metrô de Nova York como suporte para os trabalhos, aos poucos começam a chamar a atenção das galerias de arte dedicadas à arte contemporânea.  Jean Michael Basquiat e Keith Haring são os principais artistas desse período, que passam a ser reconhecidos pelo mercado, ao incluir elementos da Pop Art, no universo da arte urbana. Os dois frequentavam o circuito artístico de Nova York e se tornaram amigos de Andy Warhol. Haring foi um dos responsáveis em transformar a arte do graffiti em mercadoria, quando abriu a loja Pop Shop, no SoHo, onde vendia camisetas, bonés, pôsteres e demais produtos com a marca do graffiti que deixava pelas ruas de Manhattan.
Os primeiros registros de graffiti no Brasil se dão em São Paulo nos anos 80, antes eles ainda eram confundidos com pichação, a cidade de São Paulo foi o berço do graffiti brasileiro, foi também onde o movimento hip hop, se desenvolveu mais rapidamente.
Os adeptos do graffiti geralmente se organizam em grupos, que são denominados de crews, que atuam de forma isolada, ou em mutirões quando se reúnem com outros grupos para uma ação localizada.




3. Mutirão de graffiti

Os mutirões de graffiti já se tornaram uma referência para os artistas urbanos, pois é uma forma de mobilização social em que eles se reúnem para levar a arte para algum território degradado, ou não. O mutirão de graffiti mais famoso é o Meeting off Style, mais conhecido como (MOS). O evento percorre vários locais do mundo com um mutirão de artistas que são convidados a participar. O Meeting of Favela, surgiu após a realização do MOS no Rio de Janeiro, iremos abordar o assunto em outro capitulo.

A concepção dos mutirões está ligada à revitalização paisagística de espaços populares, quase sempre considerados degradados, abandonados ou pouco valorizados. Diferentemente do bombardeio, que tem a característica de marcar a paisagem dos bairros e localidades da cidade formal como "cicatrizes" em suas formas urbanísticas, as pinturas realizadas através dos mutirões produzem outras concepções estéticas especialmente sobre as favelas. Nessas ações os grafiteiros produzem sua arte buscando uma interação direta com a população local, na qual é desenvolvida a proposta de utilizar o graffiti como elemento de revitalização da paisagem e da cultura. (TARTAGLIA,.2010, p.135 )

O Meeting of Favela (MOF) é considerado um dos maiores mutirões de graffiti do Mundo, segundo seus organizadores, que relatam, que na edição do ano de 2014, participaram do evento mais de mil grafiteiros. No local, artistas de todas as partes do Brasil e de outros países deixam sua arte nos muros da Vila Operária. De fato, ao entrar na favela você já percebe que está em uma galeria a céu aberto, com uma diversidade de cores, formas e simbolismos. Cada um que chega, sozinho ou em crews, deixam um legado artístico que é impossível não ser notado pelas pessoas. 

Um festival de graffiti voluntário- este é o Meeting of Favela (MOF), que reúne anualmente na Vila Operária, em Duque de Caxias, mais de 300 artistas grafiteiros do Brasil e de países vizinhos. É o maior encontro do gênero na América Latina e acontece em geral em novembro, quando os muros da comunidade são coloridos e renovados com trabalhos surpreendentes, cada um com seu estilo particular. (CULTURA RJ, 2014, p. 311)





Figura 3: Artistas pintando os muros e postes da Vila Operária. Fonte: site mistura urbana



O Território é o lugar onde você pisa e se sente em casa, às vezes mesmo estando longe. É o espaço onde se tem a sensação de pertencimento. A Vila Operária se tornou o local do MOF, onde todos os anos no mês de novembro, uma peregrinação de artistas seguem em direção à cidade de Duque de Caxias, vindos das mais diversas partes do Brasil e do mundo. De diversos meios e maneiras, (de avião, de ônibus, carro, carona, bicicleta ou a pé), eles querem estar ali naquele momento, sentir a sensação de ver em 24h a transformação desse território, que é retribuída na maioria das vezes em afetos, sorrisos, reconhecimento. Uma empatia com arte, com quem, às vezes não tem a mínima noção, de ter sua residência ou muro como uma moldura aberta para todos, efêmera eternizada na memória de todos que ali estiveram.
A Favela da Vila Operária, onde acontece o MOF, é localizada no primeiro distrito da cidade de Duque de Caxias. Segundo Guimarães, “a conceituação oficial considerou como favelas os aglomerados que possuíssem, total ou parcialmente, as seguintes características:
·  Proporções mínimas – agrupamentos prediais ou residenciais formados com número geralmente superior a cinquenta;
·  Tipo de habitação – predominância de casebres ou barracões de aspecto rústico, construídos principalmente com folha de flandres, chapas, zincadas ou materiais similares;
·  Condição jurídica da ocupação – construções sem licenciamento e sem fiscalização, em terrenos de terceiros ou propriedade desconhecida;
·  Melhoramentos públicos – ausência, no todo ou parte, de rede sanitária, luz, telefone e água encanada;
·  Urbanização – área não urbanizada, com falta de arruamento, numeração ou emplacamento. (TASCHNER, 2011, p. 11)





Figura 4: Mapa da localização da Vila Operária. Fonte Mapa da Cultura do Estado do Rio de Janeiro



Segundo a pesquisadora Denize Ramos Ferreira, o local foi ocupado na década de 50, entre os anos de 1954 e 1958, quando chegaram os primeiros moradores no local. O morro era um local com mato e ainda tinha a presença de animais. Segundo o relato dos primeiros moradores, eles achavam que o local não tinha dono, portanto poderiam ocupar a terra. A maioria dos primeiros habitantes vieram do interior do Estado do Rio de Janeiro, Espirito Santo, Minas Gerais e do Nordeste. 

 O morro, no qual a Vila Operária está localizada, foi ocupado no processo de expansão urbana, ocorrido na década de 50. Entre 1954 e 1958, quando os primeiros moradores chegaram, segundo relatos orais de Maria do Carmo Portela e Ivete Assis dos Santos, que fazem parte do primeiro grupo de ocupação, cada um se estabelecia no terreno de acordo com o espaço de que precisava. Afirmaram que, como era área desabitada, buscaram os melhores lugares para construir.( FERREIRA R. D. Revista Pilares da História- Instituto Histórico Vereador Thomé Siqueira Barreto/ Câmara Municipal de Duque de Caxias e Associação dos Amigos do Instituto Histórico. DC, 2013.p.34).
 A localidade é totalmente urbanizada, com acesso a agua, luz, coleta de lixo, três escolas, duas quadras poliesportivas e dois postos de saúde, embora boa parte da comunidade, não considere a Vila Operária como favela, e sim um bairro popular, relatos desde a sua ocupação, já demonstram essa característica por parte dos moradores relativos a definição sociocultural do local.
O local também era dominado pelo tráfico de drogas, embora o número de conflitos armados, não serem frequentes. Em abril de 2014, a Vila Operária foi ocupada pelo 15º BPM (Batalhão da Polícia Militar), que instalou no local uma Companhia Destacada. Com a entrada da PM e a retirada das barreiras das ruas, a Prefeitura Municipal de Duque de Caxias, pode entrar com uma séria de serviços públicos no local.
Segundo o IBGE na cidade de Duque de Caxias há 61.452 pessoas que vivem em “aglomerados subnormais”, o instituto não utiliza o termo favela, não temos os dados relativos ao quantitativo de moradores da Vila Operária. 
Os espaços urbanos vão se modificando ao longo do tempo, vários fatores incidem sobre os territórios. Conglomerados urbanos vão se formando aumentando a densidade demográfica de determinadas regiões, fruto de várias causas, com a Vila Operária não aconteceu diferente, no inicio dos anos 50, os primeiros moradores fizeram esse relato.

O casal Maris Dias Pereira e José Batista Pereira, moradores locais, contaram-nos que os caminhos do morro eram muito estreitos, dificultando a passagem. Havia um grande capinzal, no qual pastavam cavalos e vacas e uma vacaria vendia leite. Não havia casas de alvenaria, barracos de madeira ou calçamento, tão pouco divisão em terrenos, o que caracterizava um local sem donos para os primeiros moradores que ocuparam a região. (FERREIRA RAMOS DENIZE, 2013, p. 36).
Nos dias de hoje a realidade é completamente diferente: praticamente não existem mais terrenos vazios e todas as ruas, becos e vielas tem algum tipo de calçamento. As casas são de alvenaria. A Vila Operária transformou-se num aglomerado urbano, característica de comunidades tipificadas como favela, embora, como disse anteriormente, desde as suas primeiras ocupações os moradores não consideravam o local como uma favela.

A Vila Operária não começou como uma favela, mas como uma área ocupada por pessoas que vivenciavam a pobreza urbana. As dificuldades enfrentadas por todos, criou uma unidade no morro. A solidariedade era a característica desses primeiros moradores. FERREIRA RAMOS DENIZA.

As características dessas casas foram o suporte para o MOF e a consequente transformação do ambiente urbanístico desse entorno, onde cores e formas artísticas foram incorporadas ao ambiente das residências dos seus moradores.


O primeiro MOF aconteceu no ano de 2006, “meio que por acaso”, segundo Kajaman. Nesse mesmo ano estava acontecendo na Cruzada São Sebastião, Zona Sul do Rio de Janeiro o evento Meeting of Styles (MOS) um evento de graffiti que acontece em vários lugares do mundo, sendo que este era somente para convidados, o que causou grande insatisfação para os artistas que não puderam participar. Kajaman então convidou os participantes para vir à Duque de Caxias, mais precisamente para a favela da Vila Operária, onde ele morava, dizendo que não faltariam muros para grafitarem. Ele denominou o encontro como Meeting of Favela (MOF), fazendo uma alusão ao evento que fora realizado na Zona Sul do Rio de Janeiro, somente para artistas convidados. 

No primeiro ano cerca, de cinquenta artistas aceitaram o desafio e vieram para Duque de Caxias. O evento teve o apoio da Associação de Moradores da Vila Operária, que desde a primeira edição deu suporte de alguma forma à sua realização, outra pessoa que está desde o primeiro MOF atuando na produção é Rafael Cruz. Kajaman era morador da Vila Operária, e sua relação com o local foi a referência para a realização da ação na comunidade.  “É um sinal saudável de que o trabalho de muitos artistas ainda está ligado de alguma maneira aos seus ambientes regionais.” (SMIERS, 2003, p. 186).18:39 05/06/2017

 No segundo ano, cerca de trezentos artistas participaram do MOF, e o número vem crescendo a cada ano. Segundo o Mapa da Cultura do Rio de Janeiro, é atualmente o maior encontro do gênero realizado na América Latina. O evento acontece no último domingo de novembro, onde a Vila Operária é invadida por milhares de grafiteiros, dançarinos, rappers e pessoas de outras tribos urbanas, de todas as partes do país e do mundo. Os organizadores alojam os participantes na Escola Estadual Vinicius de Moraes, onde se concentra a base do evento, no ano de 2014, a Escola Municipal Onerez, também foi utilizada para abrigar os participantes, por conta do grande número de pessoas que vieram para a Vila Operária.


Alguns visitantes chegam antes, e ficam hospedados, em casa de moradores, ou de artistas locais. Há algumas edições o sábado anterior ao MOF, foi incluído no calendário oficial do evento, onde é realizado o Pré-MOF, que é o preparativo para o grande dia. No sábado os grafiteiros fazem uma intervenção em algum muro da cidade, que não seja dentro da Vila Operária.

Diálogo com a cidade e interação de cultura é a proposta do Metting of Favela. O Circuito de Graffiti realizado anualmente na Baixada Fluminense aguarda a presença de vários artistas de todo o Brasil e do Exterior. As manifestações artísticas estão entre as importantes ferramentas de inserção social e, apesar das dificuldades de acesso existentes na Baixada Fluminense, podem contribuir de forma significativa para a redução da violência e das desigualdades na região. Na contramão das restrições surgiu a importante contribuição de alguns moradores, praticantes de graffiti. A história da POSSE471 começou no ano de 2006, com o objetivo comum de interação entre os percussores locais. A ideia era organizar um mutirão dos mutirões de graffiti. Surgiu então o Meeting Of Favela, que na 1ª Edição contou com a presença de mais de 50 grafiteiros na comunidade da Vila Operária em Duque de Caxias - RJ. Com muita perseverança e tinta nas mochilas, eles vieram de alguns lugares do Rio de Janeiro e dos Estados de São Paulo e da Bahia. Em 2007, nasceu a proposta de tornar-se um circuito anual, o então chamado MOF foi ampliado com a inclusão de, shows e almoço para os participantes. Seus líderes recepcionaram mais de 300 grafiteiros de várias cidades do país e representantes internacionais: Belo Horizonte, Florianópolis, São Paulo, Salvador, Brasília, Nova Iorque e Montreal, além da massa carioca e dai por diante o MOF se tornou parte do calendário artístico urbano nacional... O MOF (Meeting of Favela ) é realizado uma vez por ano na Baixada Fluminense, no mês de novembro, sempre no mesmo local, na comunidade da Vila Operária em Duque de Caxias. Tendo como finalidade proporcionar para os moradores um espetáculo de cores, criando incentivo para crianças e jovens que admiram a arte do graffiti. (Fonte: https://www.sympla.com.br/meeting-of-favela-10__46525, acessado em 26 de outubro de 2015)

A proporção que o evento vem ganhando a cada ano, tem feito com que os organizadores tenham que encarar novos desafios. O MOF é um evento voluntário, desde os grafiteiros que vem por conta própria para a cidade de Duque de Caxias, quanto os organizadores. Não existe uma empresa de produção cultural que realiza as atividades necessárias para a realização do mesmo. Não existe o objetivo do lucro, o maior capital que o evento deixa é o simbólico, através das trocas realizadas afetivas, estéticas, e de relações.
  

3.3.  Os artistasque fazem o MOF



Figura 5: Combone Wesley, Carlos Bobi, Marcios Bunys e Kajá, os organizadores do MOF. Foto Ivo Gonzales. Fonte: site Jornal O Globo.

Atualmente quatro artistas dividem a organização do MOF: Kajaman, Bobi, Combone e Bunys, eles também criaram junto com outros três artistas o Coletivo Posse 471, que atuam em outros projetos e ações.
André Lourenço, mais conhecido como Kajaman, iniciou sua trajetória no universo da arte no ano de 1999. Foi o skate que acabou levando para a cultura do hip hop. Na família teve uma influência indireta de um primo que tinha habilidades artísticas para desenhar. Começou no graffiti de forma involuntária, a partir da influência de Fábio Ema. No começo experimentou a utilização do spray fazendo releituras de outros artistas. Hoje seu trabalho mostra uma evolução do ponto de vista da utilização das cores e da composição de suas imagens. Suas obras apresentam traços vetoriais bem claros, com desenhos simples, dentro de uma estrutura elaborada. Tem obras espalhadas nos muros de vários cantos do país e da América Latina, e é um dos artistas urbanos mais reconhecidos nacionalmente.

Kajaman, foi de fato o criador e grande agitador do MOF, foi ele que teve a iniciativa de convidar os artistas para a Vila Operária, articular com a comunidade a realização do evento e que vem agregando a cada edição mais pessoas e novas possibilidades e desafios. 



Figura 6: Graffiti do artista Kajaman. Fonte: facebook André Kajaman





Figura 7: Graffiti do artista Carlos Bobi. Fonte: facebook Carlos Bobi

Carlos Alberto, mais conhecido como Bobi, teve seu primeiro contato com o spray na pichação, cresceu sendo influenciado pelo pai que pintava em tecidos. Foi um dos fundadores do Coletivo Posse 471, no ano de 2004. Sua arte hoje também ganha às ruas de várias cidades brasileiras e do mundo, tendo participado de importantes projetos de arte urbana e design, dentre eles o Rock In Rio, em Las Vegas. Seu estilo realista é caracterizado pela pintura de caras com bocas e nariz bem expressivos. Recentemente participou de uma ação internacional de grafiteiros na Itália.


Figura 8: Graffiti do artista Marcio Bunys . Fonte: facebook Marcio Bunys.


Marcio Bunys também é um dos fundadores do Coletivo Posse 471. Desde criança gostava de desenhar, e quando adolescente também iniciou no caminho da pichação. Em 1999 começa a realizar seus primeiros trabalhos comerciais, tendo conhecido Carlos Bobi no mesmo período, e seus traços lembram desenhos infantis. Participou da última edição do Rock in Rio, fazendo graffitis durante os shows para uma marca de roupas. 

Wesley de Oliveira, mais conhecido como Combone é natural de Minas Gerais. Assim como os outros artistas, começou suas atividades em Duque de Caxias. Iniciou os trabalhos no graffiti em 2005 e seus traços tem forte influência da arte oriental. Além dos muros, Combone trabalha com outros suportes para sua arte, como as telas, tendo seus trabalhos expostos em galerias, recentemente participou de uma exposição em uma galeria em Portugal.



Figura 9: Graffiti do artista Wesley Combone – Fonte: facebook Combone



No ano de 2004, eles se unem com mais três artistas e criam o Coletivo Posse 471, que tem por objetivo de unir os artistas da Baixada Fluminense e fortalecer a cena do graffiti na região. O grupo é um dos mais representativos da cena da cultura urbana do Rio de Janeiro, e no ano de 2014 realizou uma grande exposição no SESC Caxias. O Posse 471 é formado pelos artistas: André Kajaman, Carlos Bobi,| Christiano Hmp,  Herik Noia, Marcio Bunys,  Klebert Black e Wesley Combone.


Figura 10: Cartaz da exposição realizada em 2014 no Sesc Caxias. Fonte: Sesc Caxias.


3.4. A rede

A internet e as redes sociais certamente são um instrumento eficaz para que ações como o MOF tivessem e tenham, uma visibilidade e um alcance muito grande, o que certamente nem seus organizadores esperavam que chegassem a tal ponto. Ações culturais na cidade de Duque de Caxias, com raras exceções, não tinham o potencial de atrair um significativo número participantes. É provável que sem a ajuda de uma boa comunicação em rede, fosse de fato possível, que o evento alcançasse a dimensão que tem hoje, com a capacidade de atrair milhares de pessoas de várias partes do Brasil e do Mundo, para a Vila Operária.

As pessoas que vêm ao MOF chegam com seus próprios recursos, se alojam com seus colchonetes nas salas de escolas públicas, comem no bandejão, bebem e se divertem nos botecos e biroscas da favela, e principalmente criam uma rede de afetos com o moradores, que acabam se traduzindo em obras de arte cheias de re-significados de todo o contexto social do seu entorno.

“Graffiti é arte, mas é também um estilo de vida”. É assim que definem Ricardo Athayde, 25 anos e Thiago Fheit, de 23 anos, que viajaram mais de 400 quilômetros, de Santo André (SP) até Duque de Caxias, para participarem pela primeira vez do MOF. Athayde disse que conheceu o Meeting of favela através da internet. “Alguns amigos já ligados ao graffiti falaram sobre o MOF, e isso também foi divulgado nas redes sociais. Grafiti é da hora véio, nem tenho palavras para descrever esse momento. Eu vivo grafiti, desabafou Athayde. (Extraído do site: www.lurdinha.org, http://lurdinha.org/site/meeting-of-favela-onde-a-arte-se-mistura-com-tinta/acessado em 26 de outubro de 2015).

Apesar do alcance e da visibilidade do MOF, os organizadores não conseguiram viabilizar apoios que dessem conta das necessidades estruturais do evento, tais como: alimentos, colchonetes, comunicação visual, estrutura de produção, equipamentos de som, etc... Os poucos apoios que conseguiram eram da Escola Estadual Vinicius de Moraes, através do engajamento da sua diretora, da Associação de Moradores da Vila Operária, que desde o primeiro evento ajuda, e através do antigo presidente e atual vereador Osvaldo Lima. No ano de 2013, a Prefeitura Municipal de Duque de Caxias, através da Secretaria Municipal de Cultura e Turismo, passou apoiar o evento, com alguns apoios pontuais e de infraestrutura, o que ainda não é suficiente devido à dimensão do evento.
Voltando a questão da rede, no ano de 2013 os organizadores realizaram uma campanha na internet baseada no crowdfunding (financiamento coletivo, realizado pela internet), no site: www.benfeitoria.com.  A meta era alcançar a doação de R$ 22.000,00 (vinte e dois mil reais), que ajudariam a resolver uma série de questões estruturais do evento. No site era possível que as pessoas fizessem doações de determinados valores que variavam entre R$ 15,00 a R$ 1.000,00, em troca os organizadores do MOF ofereciam uma série de retribuições, tais como: emails de agradecimento para quem contribuísse com a quantia mínima , até um módulo de aula de grafitti no Espaço Rabisco, ou uma arte em A3 com dedicatória de um dos artistas da organização, e a logomarca nos créditos do vídeo do evento, para aqueles que contribuíssem com um valor maior.
 A campanha não deu certo, se dispuseram a contribuir somente 15 (quinze) benfeitores, entre eles o próprio Carlos Bobi e o Espaço Rabisco, com o valor de apenas R$ 1.160,00 (mil cento e sessenta reais). No site Benfeitoria, quem não alcança o valor total da campanha, não leva nada e o dinheiro depositado é devolvido aos benfeitores. http://benfeitoria.com/node/861/benfeitores/. 

 No ano de 2014, os organizadores mudaram de estratégia e realizaram um leilão virtual com obras dos organizadores do evento: André Kajaman, Carlos Bobi, Combone Wesley e Marcio Bunys. O leilão ocorreu e foi arrecadado R$ 4.600,00 (quatro mil e seiscentos reais), que pagou algumas despesas da organização do evento, mas que não solucionava grande parte das necessidades.
Como podemos perceber a rede em torno do evento foi, e é fundamental para o seu sucesso, mas ela em si não garante a sua sustentabilidade, pelas próprias pessoas que aderem, apoiam e gostam da causa. Não está claro quais fatores que levaram ao insucesso da campanha, se pela falta de uma maior comunicação dos organizadores, falta de comprometimento dos participantes ou algum outro fator que possa ter influenciado negativamente no resultado.
  


3.5. Linha do tempo do MOF

2006 - Acontece o primeiro evento com a participação de cerca de 50 grafiteiros, com artistas do Rio de Janeiro, São Paulo e Salvador. Eles recebem o apoio da Associação de Moradores da Vila Operária para sua realização. Kajaman foi o responsável pela ação de trazer para a comunidade os grafiteiros.


Figura 11: Foto do primeiro MOF. Fonte: acervo André Kajaman.

2007 – Cerca de trezentos artistas participam da segunda edição, teve a presença dos grafiteiros da Oldschool de São Paulo, Binho Ribeiro e Graphys.



Figura 12: Cartaz da edição do MOF 2007. Fonte: Fotolog.com
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2008 - Nesse ano foram introduzidas apresentações musicais no MOF, e teve shows do Mc Marechal e Flora Matos.


Figura 13: MOF 2008 - Fonte :  facebook Clarissa Piveta

2009 – Pela primeira vez o evento recebe grafiteiros do Chile, com eles o evento começa a se internacionalizar, e passa a receber artistas de várias partes do mundo.



Figura 14: Cartaz da edição do MOF de 2009. Fonte: site Ministério Publico.

2010 – O ano foi conturbado, pelos eventos de violência, que estavam acontecendo nas favelas do Rio de Janeiro, foi o período de grande tensão que culminou na ocupação do Morro do Alemão. Segundo Carlos Bobi, os organizadores estavam indecisos quanto à realização do MOF, mas decidiram realizar assim mesmo.


Figura 15: Cartaz da edição do MOF de 2010. Fonte: facebook André Kajaman.

2011- O evento tem a apresentação da Orquestra Voadora e a realização da Batalha do Real.






Figura 16: Cartaz da edição de 2011. Fonte: site Favela em Foco.

2012 – O evento teve uma estrutura maior de palco, e teve uma grande interação com os moradores.


Figura 17: MOF 2012. Fonte: facebook Clarissa Piveta.


2013 – O evento teve a participação do Dj Negralha, Marco e Zé do Roque, nomes representativos no cenário do hip hop brasileiro.



Figura 18: Cartaz do MOF 2013. Fonte: site Lurdinha.org



2014 – O MOF ultrapassa a marca de mil artistas participando do evento. É lançado o Mapa da Cultura do Estado do Rio de Janeiro e o MOF é um dos movimentos culturais relacionados do livro. O MOF ganha o Prêmio de Cultura do Estado do Rio de Janeiro, promovido pela Secretaria Estadual de Cultura, e foi entregue no Parque Laje.



Figura 19: Divulgação da edição de 2014 do MOF. Fonte: Site da Baixada.
  

4.    O simbolismo da arte  e os conflitos


Um movimento cultural vem carregado de uma serie de outros valores, percepções, pré-conceitos e duvidas. Isso ocorre em todas as sociedades. Numa comunidade da Baixada Fluminense não é diferente. A tradição do local da Vila Operária, primeiro foi o forró, trazida pelos habitantes que vieram da região do Nordeste e se estabeleceram no local. Até hoje a cultura nordestina ainda é muito presente no local, principalmente a musical relacionada ao forró. 

Outra forte influência cultural na Vila Operária, por ter muitos moradores jovens foi, e continua sendo o funk, o baile da Vila Operária, que era realizado pelo tráfico de drogas para a venda de entorpecentes era um dos mais conhecidos da região.

Nesse caldeirão cultural o MOF acaba fundindo diversos elementos e traz novos paradigmas e valores que às vezes entram em choque com outras percepções e crenças.

A cultura também é um local de disputa, nem sempre é fácil aceitar, hábitos, valores e ter a compreensão da necessidade de expressão de segmentos da sociedade, é mais fácil recriminar aquilo que não aceitamos, ou não entendemos. Segundo o artista Carlos Bobi no ano de 2014, um grafiteiro pediu a autorização para a pintura de um muro na Vila Operária, o proprietário prontamente autorizou, o artista trabalhou na obra durante todo o dia, e quando saiu o morador apagou toda a obra. Segundo o relato de Bobi que é um dos organizadores do MOF, “o morador é evangélico, não teria gostado do desenho e por isso resolveu apagar”, parte da organização inclusive está disposta a propor que não se pinte mais muros de moradores evangélicos, que pergunte antes a religião, mesmo tendo a autorização para a pintura, para não ocorrer fatos como esse relatado.

A arte deixa marcas em nossas mentes; a arte sempre provoca julgamentos. Podemos gostar ou odiar uma música ou um determinado design, por exemplo. O trabalho pode ser controverso ou considerado por muitas pessoas como normal. Não importa quão inocente possa parecer: a arte é em última instância um repositório do significado cultural. E os artistas fomentam esses significados culturais, do rap à ópera, ou da introversão ao exibicionismo puro. (SMIER JOSST, 2003, p. 122)
Também temos outras histórias de moradores que recebem desde o primeiro MOF os mesmos artistas, que todos os anos pintam suas casas e são recebidos de braços abertas e com festa pelos anfitriões.


Figura 20: Morador da Vila Operária com sua casa grafitada – Foto: André de Oliveira

Embora existisse certa expectativa e apreensão por parte dos organizadores para a realização da edição de 2015, por conta da ocupação policial, o evento transcorreu normalmente. Muitos moradores chegaram a duvidar inclusive que o evento viesse ocorrer, fato que acabou não se tornando realidade.

Apesar de toda essa disputa pela visibilidade o MOF é uma realidade no imaginário dos moradores, caminhando pelo local com o André Kajaman, todos só perguntam pelo evento. O MOF além da visibilidade para o local, também gera uma renda extra para os moradores, que se preparam para vender bebidas, salgados, refeições, no último MOF, alguns moradores perceberam que os grafiteiros utilizavam garrafas pet para levar tinta, em pouco tempo apareceram moradores vendendo as garrafas da forma como os artistas utilizavam. A questão demonstra a importância que vai além da questão estética, o MOF é uma referência na realidade dos moradores do bairro.
As artes são preeminentemente uma área em que incompatibilidades emocionais, conflitos sociais e questões de status chocam-se mais intensamente do que normalmente ocorre na comunicação diária. Também existem pessoas que se tornam agressivas quando formas de expressão artística se chocam com suas convicções mais profundas, ou sentem que tenham sido forçadas- implícita ou explicitamente- a cometer atos de violência. (SMIERS JOOST,2003, p.131).

4.1.  A consolidação do MOF

Ao longo dos anos do MOF ele vem conquistando cada vez mais credibilidade, primeiro ganharam os moradores, que deixaram seus muros livres, os portões abertos para os artistas, depois dos próprios grafiteiros, rappers, b’boys e b’girls, e pessoas das mais variadas tribos, que ano após ano, se juntam na multidão, no sobe e desce nas ladeiras da Vila Operária, de forma voluntária pelo simples prazer do encontro da arte com seu povo do grafffiti, do hip do hop e dos moradores da Vila Operária.
No ano de 2014 foi particularmente impulsionador, o reconhecimento, o projeto foi agraciado com o Prêmio de Cultura do Estado do Rio de Janeiro, e foi eleito como uma das melhores iniciativas culturais do estado, no mesmo ano o MOF passou a figurar no Mapa da Cultura do Estado do Rio de Janeiro, junto com outras centenas de iniciativas, que ganharam uma publicação bilíngue e um aplicativo com dados, agenda e localização do evento.


Figura 21: Representantes do MOF recebendo o Prêmio de Cultura do Estado do Rio de Janeiro 2014. Fonte: Site da Baixada.

A repercussão fez com que o MOF ganhasse as páginas do Jornal O Globo, com uma matéria falando sobre o evento, ilustrada com fotos dos graffitis.
No campo institucional também houve um grande avanço com a aprovação da Lei Municipal que cria a Semana Municipal do Hip Hop em Duque de Caxias. A Lei nº 2.536 de 2013, de autoria do vereador Osvaldo Lima, que na época da realização do primeiro MOF, era o presidente da Associação de Moradores da Vila Operária, prevê que ocorram atividades ligadas a cultura do hip hop anualmente na cidade. (Jornal Capital, RJ, 2013).
O sucesso em breve chegará ao cinema, o diretor de cinema Inglês, Doug Clayton, que esteve filmando o primeiro MOF, em 2006, está produzindo o documentário “Comendo Tinta”, e volta dez anos depois para filmar em 2015 o evento.  “Nós estivemos presentes no primeiro ‘Meeting of Favela’. Muita coisa aconteceu desde então e a gente registrou essa trajetória. São dez anos de vida dos grafiteiros, o modo como eles se relacionam com a cidade, além do cunho social da arte. O graffiti é a arte como veículo de inclusão. Queremos ver o que aconteceu durante essa década”, diz Clayton.

Artistas que saem das ruas e ganham as galerias são coisas que acontecem desde os anos 70 nos Estados Unidos, os primeiros a terem suas obras expostas em galerias e serem vendidas no mercado de arte, a preços bem expressivos foram os artistas: Jean-Michel Basquiat e Keith Haring.
O mercado chegou mesmo a descobrir uma forma de trazer parte da arte pública de volta à sua órbita. Nos EUA, o florescimento de graffitis urbanos em quadros coloridos e em grande escala foi reconhecido como uma vivida forma de arte. Usando não apenas as paredes, mas também locais móveis como vagões de trem, que levavam a obra da cidade para os subúrbios e além deles, a arte do graffiti rapidamente se tornou uma presença difusa em todos os Estados Unidos e na Europa.  (ARCHER MICHEL, 2008, p.171, 172).

Como podemos ver, o graffiti passa a conquistar o mercado da arte e a valorização dos artistas passa a ser uma realidade, a rebeldia e a contestação, embora ainda presente, vai perdendo sua força. Segundo Archer, o artista Basquiat, que ficou conhecido como “SAMO”, utilizava suas pinturas como forma de protesto com duras criticas aos EUA contemporâneo, nos anos 80, o artista deixa de usar o pseudônimo “SAMO”, e passa a trabalhar na galeria Annina Nosei, quatro anos mais tarde se transfere para uma outra galeria mais renomada de Mary Boone, vendendo suas pinturas por cem mil dólares cada. “No ano seguinte, trabalhou em parceria com Warhol e apareceu na capa do suplemento dominical do New York Times sentado em seu estúdio usando um terno Armani e com os pés descalços.” (ARCHER MICHEL, 2008, p. 174)

O mercado das artes visuais, e do design é muito atrativo para determinados setores econômicos e a arte urbana como o graffiti, não ficaria de fora, grandes marcas passaram a incorporar às suas campanhas de marketing, esses elementos para se aproximar desse público.
Kajaman e Bobi já fizeram trabalhos para grandes marcas como Nike, Rider, Rock in Rio, entre outras. Smiers relata essa questão, “Nas pesquisas e desenvolvimento da cultura de consumo, como especialistas de lazer e técnicos de estética, desenhando e estimulando expectativas sensuais de prováveis consumidores” (SMIERS, 2003, pg, 75).


Figura 22: Trabalho do artista Kajaman com o restaurante Spoleto. Fonte: site Spoleto.

Durante a Copa do Mundo de 2014, Carlos Bobi e Kajaman foram convidados por um canal de televisão a cabo para fazerem graffitis entre os intervalos das partidas de futebol.


Figura 23: Reportagem sobre os artistas na SPORT TV. Fonte : site Sportv

Outro caminho seguido pelos artistas do MOF é a participação em exposições individuais ou coletivas em galerias de arte. Em junho de 2015, foi inaugurado no Rio de Janeiro, a primeira galeria de arte oficial, na cidade dedicada exclusivamente a arte urbana, a GaleRio. A mostra de abertura teve entre outros trabalhos, obras de: André Kajaman e Carlos Bobi.  A galeria fica localizada num casarão do século XIX em Botafogo, na Zona Sul do Rio de Janeiro.


Figura 24: Divulgação na internet da Galerio. Fonte: facebook André Kajaman.



O artista Combone Wesley realizou sua exposição individual de pinturas na Galeria Paçoca na Gávea, que foi aberta em maio de 2015. Também participou de uma exposição coletiva em Portugal, e foi convidado para voltar na galeria com uma mostra individual, em 2016. Combone pretende com essa exposição expandir sua ação por outros países da Europa.  Carlos Bobi, após a realização do MOF, em 2015, embarcou para a Bélgica para participa do Braderie de L’Art.


 Figura 25: Cartaz de divulgação da exposição do artista Combone na Paçoca Gallery na Gavea. Fonte: facebook do artista.






5.    Conclusões

A arte carrega um simbolismo e uma capacidade de tocar o que está a sua volta, desde os tempos mais remotos a expressão artística é um meio de comunicação utilizado pelo homem como forma de demonstrar diversas questões. Ela é capaz de nos fazer refletir, ou apenas completar o que julgamos belo, mas tem também o poder de transformar lugares e pessoas. 
A abordagem deste trabalho visa analisar esse aspecto em que a arte exerce um papel central na mudança de paradigmas, de um local que já nasce com o estigma do preconceito e da indiferença, e que através da ação da arte, passa a ter um papel de protagonista e referência para a arte urbana, transformando-se num museu a céu aberto, com as mais variadas perspectivas de tradução do simbolismo do olhar, e nas possibilidades de vários tipos de representação para todos os tipos de gostos.
Outra questão é como isso se deu na vida dos criadores desse projeto, a construção de suas carreiras, através da apropriação de técnicas, aliadas a uma sensibilidade de criar obras de arte, ungidas na lógica da socialização de suas vivências. O Meeting of Favela- MOF, funcionou como um catalisador para o desenvolvimento da carreira desses artistas, que conseguiram se apropriar desse capital, para construir redes que alavancaram suas trajetórias, colocando-os em outro patamar do graffiti brasileiro.
É perfeitamente possível afirmar que a Vila Operária hoje, nesses nove anos de Meeting of Favela, é um local conhecido em boa parte do mundo, um lugar onde amantes da cultura urbana e do hip hop, querem estar no mês de novembro. Esse local que sai das páginas policiais, para entrar no Mapa da Cultura do Estado do Rio de Janeiro, contribui de alguma forma para que os artistas que iniciaram esse sonho e desafio, hoje possam levar um pouco dessa inspiração para muros, telas, postes, viadutos de todo o mundo.
Além da questão estética, o MOF ainda não foi capaz de construir outros re-significados para o local, como ocorreu em outros lugares do mundo, onde projetos de arte urbana se transforam em museus e galerias a céu aberto. Porém o evento conseguiu elevar a autoestima da maioria dos moradores da Vila Operária, que se apropriaram do projeto, e hoje faz parte do calendário de suas vidas, tornando-se uma referência positiva e deixando um legado visual registrado em suas residências.

6.    Referências bibliográficas


ARCHER M. Arte Contemporânea: uma História Concisa.  São Paulo: Livraria Martins Fontes Editora, 2008

BANSKY. Guerra e Spray (Wall and piece).  Rio de Janeiro:The Randon House Group, 2005.

CULTURA RJ. Caminhos Cheios de Bossa por um Estado com muita raça e talento. Rio de Janeiro:  Diadorin Ideias e Editora , 2014.

FARTHING S.  Tudo sobre a arte – Rio de Janeiro: Sextante Editora, 2010.

FERREIRA Denise Ramos. A Origem da Favela da Vila Operária. Revista Pilares da História. Ano 12, nº 13. Duque de Caxias, 2013.

GITAHY C. O que é graffiti. São Paulo: Editora Brasilense, 1999.

GOMBRICH E.H. A História da Arte. Rio de Janeiro:LTC. 16ª edição. 2012.

MOASSAB A. Brasil Periferia(s) A Comunicação Insurgente do Hip Hop. São Paulo: EDUC, 2011.

SMIERS. J. Artes sob Pressão. São Paulo: Escrituras Editora: Instituto Pensarte.  2003.

TARTAGLIA L. Geogra(it)ando: a territorialidade dos grafiteiros na cidade do Rio de Janeiro – dissertação de pós-graduação. Niterói:  UFF. 2010.

TASCHNER  S .P.  Favelas em São Paulo – censos, consensos e contra-sensos. São Paulo: Cadernos Metrópole, 1999.



Almanaque da Cultura. Disponível em: www.almanaquedacultura.com.br .Acessado em 25 de novembro de 2015.

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Revista Ea. Disponível em: www.revistaea.org. Acessado em 25 de novembro de 2015.










Um comentário:

Unknown disse...

Gostaria de enviar um sugestão de pauta. Como faço para entrar em contato?
Obrigada pela atenção,
Beatriz Matos

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