quarta-feira, 29 de agosto de 2012

Ativa na nuvem, Amazon muda a computação

 


28/08/2012 |
QUENTIN HARDY DO 'NEW YORK TIMES', EM SEATTLE
Folha Online

Dentro de poucos anos, a destruição criativa que a Amazon.com precipitou no mercado editorial e no varejo de livros pode ser uma nota de pé de página, quando comparada ao grande e sigiloso plano da empresa para oferecer a todas as pessoas do planeta acesso a um poder de computação quase inimaginável.

A cada dia, uma empresa iniciante chamada Climate Corporation executa mais de 10 mil simulações quanto ao clima para os próximos dois anos em mais de um milhão de locais nos Estados Unidos. Em seguida, combina os dados obtidos a informações sobre estrutura de raízes e porosidade do solo para estabelecer os termos das apólices de seguros vendidas a milhares de agricultores.

Outra empresa iniciante, chamada Cue, registra o conteúdo de até 500 milhões de e-mails, atualizações no Facebook e documentos empresariais a fim de criar um serviço capaz de delinear a biografia de qualquer pessoa que um usuário venha a encontrar, avisar que o usuário esteja em casa para receber um pacote ou avisar um convidado de almoço de que o usuário está atrasado, via mensagem de texto.

As duas empresas executam tarefas de computação que uma década atrás teriam sido impossíveis sem grande investimento em informática. Mas ambas possuem apenas alguns computadores de mesa. Como milhares de outras companhias, elas alugam espaço para armazenagem e tempo nos servidores da divisão Amazon Web Services (AWS) da Amazon, por preço que dizem equivaler a uma fração do que teriam de pagar caso tivessem e operassem computadores próprios.

EFICIÊNCIA

"Tenho dez engenheiros, mas sem a AWS garanto que precisaria de 60", diz Daniel Gross, 20, cofundador da Cue. "O serviço fica cada vez mais barato". Ele calcula que a Cue gaste menos de US$ 100 mil ao mês pelos serviços da Amazon, e que teria de gastar "provavelmente US$ 2 milhões se fizéssemos tudo nós mesmos, e sem a mesma velocidade e flexibilidade".

Ele reconhece que "nem sei qual é o preço de referência para um servidor... Para mim, isso é tão útil quanto saber o preço de uma espada".

A computação em nuvem existe há anos, mas agora vem acionando toda espécie de novos negócios em todo o planeta, rapidamente e com menos capital.

O Instagram, um serviço fotográfico com 12 funcionários que foi vendido ao Facebook por valor estimado em US$ 1 bilhão apenas 19 meses depois de sua criação, decidiu que não era necessário encarar as despesas e o incômodo de instalar servidores próprios.

O EdX, programa mundial de educação on-line do Instituto de Tecnologia de Massachusetts (MIT) e da Universidade Harvard, tem 120 mil alunos assistindo a uma mesma aula por meio da AWS. Mais de 185 agências do governo federal norte-americano executam ao menos parte de seus serviços usando a AWS. Milhões de pessoas na África compram carros online usando smartphones baratos conectados a servidores da AWS instalados na Califórnia e Irlanda.

"Estamos vivendo uma mudança tão momentosa e fundamental quanto a da adoção das redes elétricas", disse Andrew Jassy, o presidente da AWS. "E está acontecendo muito mais rápido do que muitos de nós imaginávamos".

Ele estabeleceu a AWS em 2006 com pouco mais de 30 funcionários. A Amazon não informa quantos funcionários a divisão emprega agora, mas o site da empresa tem mais de 600 postos de trabalho em aberto na sua seção de empregos.

CONCORRÊNCIA

Os esforços da Amazon são só o começo de uma disputa mundial entre gigantes da computação. Em junho, o Google lançou comercialmente um serviço semelhante ao da AWS. A Microsoft também está entrando na parada com sua divisão Windows Azure.

Portanto, nem que apenas por motivos de concorrência, a Amazon não revela muito sobre a AWS. A estimativa é de que a divisão gere faturamento de cerca de US$ 1 bilhão anual para a companhia. Suas três gigantescas centrais regionais de processamento nos Estados Unidos --na Virgínia, em Oregon e na Califórnia-- consistem cada qual de múltiplas edificações abrigando milhares de servidores.

Há outras centrais Japão, Irlanda, Cingapura e Brasil. E o ritmo de expansão se acelerou. Quatro centrais foram inauguradas nessas regiões em 2011, e a estimativa é que igual número esteja em construção no momento. Jeff Bezos, o presidente-executivo da Amazon, está interessado em criar serviços de computação em nuvem para atender a outros governos.

De acordo com um executivo que conhece a operação da Amazon mas não tinha autorização para falar publicamente sobre ela, cada uma das 10 centrais de processamento de dados da Amazon na metade leste dos Estados Unidos conta com mais servidores de computação em nuvem do que toda a Rackspace, uma companhia de computação em nuvem que atende a 180 mil empresas e opera mais de 80 mil servidores.

Para o futuro, diz Jassy, "acreditamos firmemente que a AWS possa ser ao menos tão grande quanto nossos demais segmentos". A Amazon registrou faturamento de quase US$ 50 bilhões no ano passado. Jassy acredita que a AWS possa crescer em mais de 10 vezes no futuro.

O custo baixo da computação e a disponibilidade imediata de máquinas são os pontos fortes do negócio. A Spiegel TV, da Alemanha, paga a AWS para que realize cópias digitais de 20 mil de seus programas. O custo do serviço é inferior ao que ela gastaria em eletricidade para realizá-lo em seus servidores.

MENOS FUNCIONÁRIOS

A GoodData, de San Francisco, analisa dados de 6.000 companhias usando a AWS para identificar fatores como promoções de vendas. "Antes, cada empresa precisava de pelo menos cinco pessoas para realizar esse trabalho", diz Roman Stanek, presidente-executivo da GoodData. "Isso quer dizer 30 mil pessoas. Nós o fazemos com 180. Não sei o que todas essas outras pessoas farão agora, mas o trabalho que fazemos não existe mais para elas. É uma consolidação na qual quem vence fica com tudo."

O imenso fluxo de dados pelos servidores de nuvem da Amazon também tem valor. As pessoas revelam dados sobre si mesmas que podem ser analisados por terceiros. Em qualquer dado momento, na AWS, há um milhão de usos de um poderoso banco de dados chamado Elastic MapReduce, utilizado para fazer previsões. Algumas funções sugerem um bom filme para assistir ou videogame para jogar, enquanto outras registram comportamento relativo a publicidade, históricos de crédito ou afinidades românticas. (As empresas participantes permitem a análise de seus dados, e a Amazon diz que aplica a eles os mesmos padrões de segurança que usa em seu site de varejo.)

A eficiência desse ambiente de fluxo elevado de informações já está reformulando as funções de muitos trabalhadores, e criará ainda mais mudanças no futuro. "Agora é possível testar um produto junto a milhões de usuários por apenas alguns milhares de dólares, ou criar uma empresa com apenas um ou dois funcionários", diz Graham Spencer, executivo da Google Ventures, que investe em empresas iniciantes que operam com uso pesado de dados e dependem de computação de baixo preço como a oferecida pela AWS. "É uma grande mudança para o Vale do Silício".

É uma visão que se alinha à de Bezos para a AWS, dizem executivos que trabalharam com ele. "Jeff pensa em nível planetário", disse David Risher, antigo executivo da Amazon que hoje dirige uma organização de caridade chamada Worldreader, que usa a AWS para promover downloads de livros em milhares de computadores na África. "A AWS é uma oportunidade, como negócio. Mas também é uma filosofia de permitir que outras pessoas construam grandes sistemas. É assim que a Amazon deixará sua marca no universo".

Tradução de Paulo Migliacci

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