segunda-feira, 18 de outubro de 2010

Jornal O Globo destaca produção musical da Baixada Fluminense

O Jornal O Globo, deste domingo publicou uma matéria no segundo caderno sobre a produção independente musical da Baixada Fluminense. Nosso blog reproduz a matéria do jornal e posta o clipe da Banda A Cidade de Duque de Caxias, um dos destaques da matéria.

http://www.youtube.com/watch?v=NPXSH4U6pqo


Gravadora Transfusão Noise Records movimenta um emergente cenário musical na Baixada

RIO - Na sede da Transfusão Noise Records, o presidente da gravadora, Lê Almeida, abre uma gaveta de papelão e mostra os seus novos lançamentos. São oito CDs, com capas abstratas, embaladas apenas por uma proteção de plástico e com os nomes das bandas impressos: Carpete Florido, Silvo, Babe Florida e Uma Nova Orquídea em Meu Jardim Alucinógeno, entre outras. Depois, já dentro do estúdio Interestellar Lo-Fi, que fica no mesmo local, ele bota algumas músicas para tocar enquanto explica o planejamento de marketing para essa fornada.
- Fazer cada um desses discos custa, em média, R$ 180. Esse valor eu divido com as bandas - explica ele, sentado no estúdio, em frente ao computador. - Depois, vendemos os discos on-line e nas banquinhas que montamos quando rolam shows. Com a grana da venda, a gente investe em novos discos, camisetas e buttons. É um ciclo quase fechado. Não sobra dinheiro.
O planejamento de marketing não é a única coisa modesta na Transfusão Noise Records, coração do novíssimo rock independente da Baixada Fluminense e centro de uma cena musical fora dos radares da Zona Sul. Em torno dela, gravitam músicos, DJs e agitadores culturais, que abraçam o lema "faça você mesmo" não como estética, mas como única opção de sobrevivência.
A sede da gravadora, por exemplo, fica na casa de Lê, numa rua íngreme em Vilar dos Teles. No local, além de Lê - que é também diretor artístico, artista, produtor e office-boy da gravadora que criou em 2005 - moram outras seis pessoas. Nos fundos, vive a avó de Lê. E num dos pequenos quartos, o do presidente da gravadora, fica o apertado Interestellar Lo-Fi. Ali e no quintal, são gravados quase todos os discos, e até os vídeos, dos artistas da Transfusão.
- É meio desorientador. Na última vez em que gravei umas baterias no quintal, tive que esperar os intervalos enquanto meu pai consertava uma máquina de lavar - conta Lê, 26 anos, vocalista, compositor, guitarrista e baterista. - Além disso, nessa parte do quintal ficam passarinhos, e o canto deles andou vazando nas gravações. Por isso, prefiro gravar de madrugada.
Perto das dificuldades enfrentadas por Lê e sua turma, a tão comentada "penúria" atual das grandes gravadoras é bobagem. Até o ano passado, Lê gravava suas músicas sozinho, com um microfone plugado no computador. Só há alguns meses ele ganhou uma mesa de mixagem, dos integrantes da banda Fujimo (que, apesar de gravarem pela Transfusão, são do Leblon).
- O Lê tem sempre muita urgência. Ele diz para todas as bandas gravarem logo suas ideias, sem perder muito tempo. E isso é muito bom - garante Bigú Medine, do Carpete Florido.
Os obstáculos não impediram que a Transfusão tenha lançado, desde o seu surgimento, 34 discos, todos de forma caseira e apaixonada. Um dos mais celebrados foi a coletânea "Don't stop now", lançada em 2009, um tributo ao grupo americano (e independente, claro) Guided By Voices feito por 31 bandas dos fundos de quintal do país.
- Na Baixada a gente tem que trabalhar em dobro para aparecer - conta Evandro Fernandez, guitarrista do Uma Nova Orquídea em Meu Jardim Alucinógeno. - Aqui só querem saber de funk e samba. Costumavam rir do nosso som, que chamavam de barulho. Mas as coisas melhoraram. A gravadora do Lê serviu para unir um grupo muito legal de pessoas. Agora, todo mundo se ajuda, as bandas trabalham de forma coletiva.
Como indicam os nomes de algumas bandas, o som que marca os contratados da Transfusão é um cativante rock lo-fi, de guitarras distorcidas e tintas psicodélicas, cantado em português e inglês, influenciado tanto pelo Pink Floyd como por Sonic Youth e My Bloody Valentine. Psicodelia, como os anos 60 ensinaram, tem a ver com escapismo...
- Podes crer. A gente viaja muito nas letras e sons - diz Lê. - Há um pouco de escapismo, sim. O que falta aqui na Baixada a gente traz na cabeça.
Se a Transfusão é o epicentro desse movimento, a reverberação se dá através de coletivos como o Geração Delírio, de Nova Iguaçu, que promove as concorridas festas Cabaret Veneno na Baixada e, às vezes, no Centro do Rio, reunindo essas bandas e outras, como a Sofia Pop - uma das preferidas do público local, embora não tenha CD lançado.
O esquema do Geração Delírio é o mais simples possível: todos se juntam para alugar a aparelhagem de som, criar as filipetas, chamar um DJ e comprar as bebidas. Foi assim no último evento do grupo, em agosto, um especial noise que reuniu cinco bandas no Motoclube Veneno da Cobra, em Caxias.
- A única opção que a gente tem aqui na Baixada é a nossa opção - resume Paulo Vitor, o PV, um dos criadores do coletivo. - O Geração Delírio reúne não apenas bandas de rock, mas também escritores, poetas e artistas plásticos. Nossos eventos são tão independentes quanto as bandas que tocam neles. O que nos une é o gosto por arte, barulho, psicodelia e cerveja.
Flaming Lips é influência
Entre os grupos que se apresentaram no especial noise, estava a Cidade de Duque de Caxias, considerada uma joia entre as bandas da Baixada. Como a Sofia Pop, ela não tem disco gravado, embora suas lisérgicas músicas, influenciadas por Mutantes e Flaming Lips, possam ser ouvidas na internet (myspa ce.com/acidade).
- A gente tem a impressão de que o resto do Rio não olha para a Baixada como deveria, o que é uma pena - diz o líder do grupo, o guitarrista Raoni Redni. - Mas não importa. Há ótimas bandas aqui. Fazemos nosso som, curtimos os shows, dançamos juntos e ajudamos uns aos outros. Se um dia olharem para cá, ótimo, verão que existimos e estamos prontos.

Um comentário:

Anônimo disse...

os "invisíveis" tão começando a aparecer... :)
há uma cidade pulsando por aí e que começa a ser detectada de verdade.
há de fato uma cena formada e que ainda vai fazer muito barulho. a geração delírio por exemplo é um movimento muito foda; sou fã.
aposto muitas fichas nessa molecada toda aê.

'té+
heraldo hb ./

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