quinta-feira, 25 de agosto de 2011

Londres ataca a causa dos tumultos. E sobra pro Twitter e Facebook


Alexandre Xavier
De São Paulo
Fonte: www.terra.com.br
Em 1941, duas bombas nazistas caíram sobre o Cafe de Paris, um dos mais chiques clubes noturnos de Londres.
Elas aterrissaram bem em cima da pista de dança. Cerca de 80 pessoas morreram.
Em meio ao deus nos acuda, ao resgate e aos pedidos de socorro, vários transeuntes se embrenharam nos escombros para pilhar as jóias e o dinheiro das madames e dos engravatados que estavam mortos ou agonizando no que restava da boate.
Este episódio da II Guerra foi lembrando por ingleses indignados com os comentários que dão conta de que os tumultos recentes nas ruas da Inglaterra aconteceram porque "a sociedade e os valores estão se deteriorando".
Estes leitores defendem que a sociedade e os valores são mancos desde que o mundo é mundo.
Causa e consequência
A causa dos "riots" não cabe numa manchete de jornal. Sua complexidade é inversamente proporcional à banalidade dos ataques.
O governo de David Cameron anunciou esta semana a abertura de uma investigação independente a respeito das causas dos incidentes que deve levar de seis a nove meses para parir resultados e recomendações.
Mas como não dá para esperar nove meses, o governo começa a reagir. E a meter os pés pelas mãos.
Cameron já chamou o Facebook, o Twitter e a Blackberry para uma conversa. Ele quer banir os infratores das redes sociais, além de bolar uma forma de policiamento para que congregações violentas não se organizem no futuro.
Embora o Facebook já tenha se manifestado contra, e dito que apagou mensagens de incitação à violência, o temor de "censura" já começa a incomodar.
Outra ação patética do governo foi a ameaça de despejar as famílias envolvidas nos tumultos.
Também há o sentimento de dois pesos e duas medidas.
Quando o escândalo do News of the World atingiu o assessor de comunicação de Cameron, ele achou que estavam pegando muito pesado com seu amigo - mas para investigar e prender infratores e suspeitos do que se batizou de "London Riots", ele dá superpoderes para a polícia. Da vingança à censura nas redes sociais, David Cameron, por enquanto, só está assinando um novo Tratado de Versalhes (que jogou a Alemanha no buraco após a 1ª Guerra Mundial). E nada indica que bombas não cairão em seu Café de Paris no futuro.

Durante os conflitos em Londres, policiais foram às ruas para evitar novos saques a lojas (Foto: Matt Dunham/AP)
Patinação na crise
No começo, Cameron demorou dias para reagir aos ataques, depois hesitou em levar a cabo esta investigação sobre as causas do tumulto e agora se diz animado em refundar a sociedade inglesa.
Em seu discurso esta semana ele foi ambíguo.
Deixou claro que o levante não se tratou de uma questão social e afirmou que tudo não passou de um problema de "comportamento" e "pura criminalidade", ao mesmo tempo em que culpa a "sociedade quebrada" e "décadas de problemas sociais".
Embora talvez não esteja equivocado em sua leitura, o premié patina e dá munição a David Milliband, líder da oposição, que chama de "simplistas" as reações do governo à crise.
Conservadores e trabalhistas se pegam, mas concordam num ponto: com o episódio dos grampos telefônicos dos tamblóides e outros escândalos políticos internos, há um sentimento de que o Reino Unido necessita de um "renascimento ético".
O The Guardian lançou uma seção em seu site chamada "Reading the Riots" que junta notícias e análises para tentar entender o que ocorreu e o que vem pela frente:
http://www.guardian.co.uk/uk/series/reading-the-riots
Na conta da crise devem entrar muitas variáveis.
Desde a sociedade consumista e todas as suas entranhas (arquétipos, símbolos, anseios, estruturas, publicidade...), à índole humana, o comportamento da polícia, as políticas econômicas e sociais dos últimos 30 anos...
O conflito na Inglaterra deixou as ruas. Agora a briga é sobre o que causou os tumultos e como lidar com ele.

Alexandre Xavier é jornalista, dirigiu o documentário premiado em Gramado "Do Horror à Memória" e se corresponde quinzenalmente direto das salas de cinema e das locadoras de DVD.

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