segunda-feira, 1 de agosto de 2011

Solano Trindade por Miguel do Rosário

31 de julho de 2011

Motel Solano Trindade

Curiosa vida. Numa hora Solano Trindade recita poemas no Vermelhinho, aquele boteco em frente à ABI, diante de figuraças como o Barão de Itararé, o próprio, banha, cachaça, piadas; eis que, sessenta anos depois, um blogueiro bêbado pratica desatinos idiotas num motel sombrio de Duque de Caxias. Tipo se levantar à noite, sonâmbulo, e mijar num canto do quarto, qual um exu mal ajambrado e babaca.

Eu tenho dívidas, confesso. Malditos livros sobre a idade média, filmes antigos, oitocentos posts sobre política, alguns condomínios atrasados. Ambições mesquinhas. Vaidade. Fernando Pessoa escrevia cartas comerciais para ganhar dinheiro. Eu tenho raiva dos poetas vendendo livrinhos xerocados na porta da Biblioteca Nacional. Gosta de poesia, me perguntam. Não, eu respondo.

Eu não gosto de poesia, seus putos.

Mas fui à Caxias dirigindo meu carro velho, um pouco nervosamente por estar há mais de dez anos sem pegar estrada, e além disso, não sei se o Haiti é aqui, mas a Faixa de Gaza (ali na Leopoldo Bulhões), com certeza, é.

Cheguei depois da exibição do filme, mas a tempo para a festa no vão do Sesc, um trambolhão gigantesco desenhado por Oscar Niemeyer, encravado esquisitamente no caótico centro de Caxias. A tempo, enfim, de curtir música boa, beber cervejas a quatro reais no botequim do outro lado da rua, encontrar meu velho amigo Renato que apareceu do nada, e ter amnsésia depois de torrar uma pequena fortuna.

Assisti ao filme em casa, no dia seguinte, um belo documentário sobre o inesquecível poeta Solano Trindade, amigo dos comunas da década de 40, rival e parceiro de Abdias Nascimento, uma espécie de Luther King pinguço, macumbeiro e mulherengo. Um poeta.

E eu não gosto de poesia.

Porque a poesia não existe, seus putos.

O que existe é o poeta, dizia Dante Milano.

Solano participou de treze filmes, entre eles alguns clássicos do cinema nacional, como A Hora e a Vez de Augusto Matraga. Pesquisava manifestações folclóricas e produzia espetáculos que marcaram muitas gerações. Suas festas, em Caxias ou em Embu, São Paulo, duravam três dias. Como diria outro negão, anos depois, Solano era o cara.

A minha diversão durou apenas até duas e pouca da manhã. Dormi num motel perto do centro, minha mulher com medo que algum psicopata arrombasse a porta de madrugada e nos matasse (a porta, aliás, estava mesmo arrombada).

As ruas cheias de craqueiros alucinados. Caxias, a quarta economia do país, e o melhor hotel está cheio de mosquitos. Godi, Fiorenza, poi che se' sì grande, che per mare e per terra batti l'ali, e per lo 'nferno tuo nome si spande!

Goza, Caxias, pois que és tão grande, que por mar e terra bate asas, e até no inferno teu nome se expande!

E todos com receio do senhor Zito, com tantos capangas e nenhuma capa preta. Nada disso. A Lurdinha, dessa vez, está na mão do povo! Quer dizer, do HB, o que é quase a mesma coisa.

Então lá estava o blogueiro na festa de nove anos do cineclube Mate com Angu, coroada com um filme sobre Solano Trindade. Aindo prefiro Dante Alighieri, mas Solano é coisa nossa. Ele, o prefeito-mafioso, um bom café da manhã num motel vagabundo. E as lembranças, algo nebulosas, culpadas, magníficas, de uma grande farra entre camaradas.


(Equipe de produção de O Vento Forte do Levante, um honesto
e competente documentário sobre o poeta Solano Trindade).

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